economiacapixaba

Os impactos da concentração produtiva no Espírito Santo

In Desenvolvimento Capixaba, Interiorização, Urbanização on 19/03/2012 at 11:34

Por: André da Silva Mendes (bolsista de iniciação científica do GPIDECA)

A crise econômica verificada no Espírito Santo entre os anos de 1950 e 1960 põe em evidência o aniquilamento do modelo econômico então vigente na economia capixaba, que por quase um século esteve baseada na atividade cafeeira. Esse aniquilamento não é só produto de reveses nos preços do café, mas é, sobretudo, uma consequência tardia de uma mudança compulsória a que esteve sujeita a economia do Espírito Santo ante ao processo de industrialização brasileiro em andamento.
Entre as décadas de 1940 e 1960 o Espírito Santo teve seu plantio de café expandido em 74% ; o favorecimento disso se deu por conta das altas nos preços até 1954. Os reveses se inciaram em 1955, quando o setor cafeeiro passou a experimentar amargos rendimentos que logo se propagaram nos seus indicadores econômicos. Em 1950, o café diretamente gerava 32,4% da renda interna no Espírito Santo; em 1960 sua participação caiu para 22,6%. Quando se considera sua participação na indústria de transformação , que em 1949 era de 60,9%; em 1959 diminui para 16,6%. (ROCHA & MORANDI, 1991, p. 48)

Os dados do IBC, dos os anos de 1962 a 1966, mostram que o GERCA liberou 70% das áreas erradicadas dos cafezais às pastagens e pecuária. Do ponto de vista fundiário isso provocou expressivas concentrações de terras . Não houve políticas efetivas para a diversificação da agropecuária, apenas uma alocação para aquelas atividades em que já existiam recursos físicos e que exigiam poucos volumes de capitais.

Outra seqüela da erradicação dos cafezais foi a liberação de 73.470 pessoas, sendo que dessas, somente 13.076 foram realocadas em outras atividades agrícolas, tendo o restante migrado para núcleos internos mais dinâmicos como a Grande Vitória, Colatina e Cachoeiro de Itapemirim e outros Estados. Estima-se, segundo ROCHA & MORANDI (1991, p. 57), que essa parcela de desempregados tenha tomado proporções muito maiores, chegando a afetar aproximadamente 240 mil pessoas.

Os grandes projetos


Os Grandes Projetos tiveram uma dotação de recursos de US$ 5 bilhões a serem executados entre os anos de 1974 e 1983 e compunham a instalação dos complexos turístico, portuário, naval, paraquímicos e siderúrgico de forma que aproveitassem as potencialidades rodoportuárias oferecidas pelas BR’s 101 e 262, pelo Porto de Vitória, pelo Porto de Tubarão e pelo vasto litoral. Desses complexos concretizaram-se os seguintes empreendimentos: a Rodovia do Sol, que foi fundamental para o acesso rodoviário à Samarco, os Portos de Praia Mole e de Ubú; a CST; a Samarco; a Aracruz Celulose; e as usinas de pelotização da CVRD.
Na época, a previsão, em termos macroeconômicos de seus impactos mostrava que a região da Grande Vitória deteria 67% dos investimentos totais e 54% dos empregos gerados. Para o cômputo estadual, a expectativa em 1983 era de a renda per capita interna ultrapassasse a média brasileira em 28%; a população ocupada passaria de 491 mil pessoas para 764,5 mil pessoas (CORREA DA SILVA, 1993, p. 235).
Em relação aos impactos, Silva (1993) em sua dissertação, diz que essas mudanças trariam os seguintes riscos: I) pressão sobre orçamento estadual sem correspondência tributária; II) forte êxodo rural; III) aumento da poluição; IV) diminuição da qualidade de vida e V) tendência especulativa do mercado local de fatores .

O aprofundamento da lógica concentradora

Os resultados do sistema FUNRES/BANDES para o período 1970-2000 mostram claramente a concentração espacial de seus recursos na região da Grande Vitória. Isso porque no período 1970-1980 o montante de investimentos (59,3%) e dos incentivos fiscais (56,7%) se destinavam para a Grande Vitória, provocaria certo desestímulo à diversificação regional dos projetos de desenvolvimento. Na década seguinte, esses dois tipos de recursos vão para 69,4% e 57,9% respectivamente. E no decênio seguinte vão para 83,1% e 62,5% .
Em relação ao sistema FUNRES/BANDES para o período 1981-1990, das 205 operações realizadas, 78 se destinaram para a Grande Vitória e 127 para o interior; para o decênio 1970-1980, das 136 operações realizadas, 81 se foram para a Grande Vitória e 55 para o interior. Com isso, MOTTA (2002, p. 82) afirma que houve baixa capitalização desse sistema de fomento em relação aos Grandes Projetos. Dessa forma, não seria possível o Estado garantir o dinamismo de sua economia – agora dependente do grande capital.

Concentração econômica no período recente

A industrialização verificada no Espírito Santo é do tipo pesada, que se consolidou como plataforma de exportação. Para empreendimentos dessa natureza, as interações locais são naturalmente restringidas e frágeis, exigindo políticas e ações estratégicas específicas para estimular essa interação entre as pequenas empresas locais e as grandes empresas. Por outro lado, parte da economia local passa a ser dependente do faturamento das Grandes Empresas Exportadoras e das tradings companies em suas atividades no mercado internacional. As seqüelas se refletem nas disparidades dos seus indicadores socioeconômicos internos: uma população concentrada nos municípios litorâneos que abrigam grandes indústrias; e no mesmo sentido o PIB e a renda.
Não se trata apenas de um delineamento quantitativo-superficial-geográfico. Pelo contrário, trata-se da constatação de que o Espírito Santo cresceu economicamente de forma expressiva apenas nos municípios litorâneos – principalmente na microrregião da Grande Vitória Apenas complementarmente passou a integrar, ainda que de forma descompassada, outra parte de seu território, constituída por alguns municípios que passaram a gravitar nos resquícios do dinamismo litorâneo.
No tocante à evolução populacional do Espírito Santo, no censo de 2010 a região Metropolitana concentrava 48% da população estadual. Quando se observa os censos anteriores, em especial para o de 1991 – que já mensura a transformação agrário-urbana decorrente da industrialização pesada – o que se verifica através do aspecto demográfico é que o Estado não vem conseguindo efetivamente descentralizar o crescimento econômico por seu território. Isso porque mesmo que outras regiões tenham passado a catalisar alguns grandes investimentos, a capacidade indutória da Grande Vitória para acomodar essa riqueza gerada não foi modificada.

TABELA 1 – POPULAÇÃO: ESPÍRITO SANTO 1970-2010 (em milhares)

Fonte: IBGE/SIDRA Censos 1970 a 2010

Por sua vez, quando se analisa a distribuição dos investimentos previstos por cada região na tabela abaixo, o comportamento é semelhante ao da alocação populacional. Na ótica dos investimentos previstos, a questão da concentração produtiva é parcialmente distendida. Primeiro porque as outras regiões contempladas são vizinhas à Metropolitana e também se situam na faixa litorânea. Segundo porque, como já foi dito na análise populacional, a capacidade indutória da Grande Vitória para acomodar essa riqueza gerada não foi modificada.

TABELA 2 – INVESTIMENTOS PREVISTOS POR MICRORREGIÃO (%)


FONTE: IJSN – Investimentos Previstos 2009-2014 e
Investimentos Previstos 2010-2015

Considerações Finais

Através dessa síntese analítica que se procurou fazer nesse texto, sob várias óticas analisadas, se constatou graus altos de concentração produtiva no Espírito Santo alocados preponderantemente na região Metropolitana. E, através de leituras auxiliares, percebe uma atuação inane por parte do Governo do Estado em promover efetivas políticas de descentralização do desenvolvimento, a ponto de alcançar regiões não litorâneas. Caso se perdure essa postura de esperar o investimento privado apontar os horizontes do crescimento econômico, a concentração produtiva se agravará mais ainda.

Referências

BUFFON, Jose Antônio. O café e a urbanização no Espírito Santo: aspectos econômicos e demográficos de uma agricultura familiar. Campinas, [SP, 1992. [386] f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia.

CORREA DA SILVA, Justo. Espírito Santo: o processo de industrialização e a formação da estrutura do poder executivo 1967/1983. Belo Horizonte, 1993. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Curso de Mestrado em Administração.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo agropecuário 1920-2006. Disponível em : <www.sidra.ibge.gov.br> Acesso em 10 de maio de 2011.

MOTTA, Fernando Cezar Macedo. Integração e dinâmica regional: o caso capixaba. Campinas. [SP, 2002. 166 f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia.

RODRIGUES, Lélio. Perspectivas de Desenvolvimento Integrado no Espírito Santo, no próximo decênio, a partir do crescimento assegurado pelos Grandes Projetos. BANDES, dezembro, 1973. s.n.t.

Anúncios
  1. Vitória não iria conseguir se sustentar pra sempre apenas com a produção cafeeira.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: