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ESPECIALIZAÇÃO REGRESSIVA E ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O INTERCÂMBIO COMERCIAL ESPÍRITO SANTO X CHINA – I

In Comércio Exterior, Desenvolvimento Capixaba on 12/11/2013 at 15:22

Por: Ednilson Silva Felipe

ÍndiceA partir do seu ingresso na Organização Mundial do Comércio – OMC, em 2001, a China teve seu espaço de inserção ampliado, o que fortaleceu o seu fluxo comercial com maioria dos países e vem, ano após ano, aumentando também o seu intercâmbio com o Brasil. O debate em torno disso esteve centrado (1) nos desafios para os produtores brasileiros em relação a competição com os chineses e, mais recentemente, (2) em entender como a dinâmica chinesa pode significar oportunidades para a economia brasileira.

 De um lado, para alguns, os produtos chineses passaram a surgir como avalanche que colocava em xeque todos os setores industriais, principalmente aqueles intensivos em mão de obra, incapazes de competir com os baixos salários praticados na China. Para esses, a “competitividade chinesa” surge como uma ameaça à indústria brasileira. Por outro lado, uma vez que a China passa a aparecer como um dos grandes importadores mundiais, sua dinâmica fortalece o comércio exterior brasileiro e a continuidade do crescimento daquele país contribui, em grande medida, para expansão dos setores exportadores brasileiros.

1 – O ESPÍRITO SANTO E SEU INTERCÂMBIO COM A CHINA

 Para o Espírito Santo, a China apresenta uma dupla influência econômica:

 (a). Pelo lado das exportações, os sucessivos recordes de venda ao exterior se deveram, em grande parte, à velocidade e voracidade com que a China passou a depender das commodities por aqui exportadas. De forma ilustrativa, a expansão chinesa foi crucial para as exportações da Vale e, em certo sentido, representou para essa empresa, o que foi o Japão e os Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. Por isso, não há como desvencilhar a China das taxas de crescimento da economia capixaba.

 (b). Em segundo lugar, a agressividade das estratégias comerciais das empresas chinesas e a intensidade com que conseguiram colocar seus produtos no mercado capixaba têm forçado uma nova postura das empresas locais, no sentido de ampliar suas competências, investimento em inovação e diferenciação para fazer face aos produtos asiáticos. Esse desafio apresentou-se muito mais intenso nos setores de vestuário, calçados, móveis e brinquedos.

2 – BALANÇA COMERCIAL ESPÍRITO SANTO X CHINA

A China já se consolidou como um dos mais importantes parceiros comerciais do Espírito Santo. Conforme as tabelas abaixo, a China representa, desde 2009, o segundo mercado para as exportações capixabas e o primeiro no fornecimento de bens para o Espírito Santo.

TABELA 1 – PRINCIPAIS PAÍSES DESTINOS DAS EXPORTAÇÕES CAPIXABAS 2008-2012

2008

2009

2010

2011

2012

Coréia do Sul

Estados Unidos

Estados Unidos

Estados Unidos

Estados Unidos

Estados Unidos

China

China

China

China

Argentina

Países Baixos

Países Baixos

Países Baixos

Países Baixos

FONTE: SECEX / ALICEWEB

 TABELA 2 – PRINCIPAIS PAÍSES FORNECEDORES AO ESPÍRITO SANTO 2008-2012

2008

2009

2010

2011

2012

China

China

China

China

China

Estados Unidos

Estados Unidos

Estados Unidos

Estados Unidos

Estados Unidos

Chile

Coréia do Sul

Coréia do Sul

Coréia do Sul

Coréia do Sul

FONTE: SECEX / ALICEWEB

Considerando as exportações capixabas para a China e a importação pelos portos capixabas, a Balança Comercial Espírito Santo X China tem, nos últimos anos, sido fortemente deficitária. Depois de apresentar um pequeno superávit em 2009, o saldo, já negativo, parece formar uma tendência ao aprofundamento do déficit, conforme aponta o gráfico abaixo.

GRÁFICO 1 – BALANÇA COMERCIAL ESPÍRITO SANTO X CHINA 2006-2012 em US$ mil, correntes

GRAFICO 1FONTE: SECEX / ALICEWEB

Já o gráfico abaixo apresenta as exportações e importações capixabas da China, levando em consideração o quantum comercializado.

GRÁFICO 2 – BALANÇA COMERCIAL ESPÍRITO SANTO X CHINA 2006-2012 em toneladas

GRAFICO 2

FONTE: SECEX / ALICEWEB

 Percebe-se, pelo gráfico acima que em termos de quantum comercializado, o Espírito Santo exporta muito mais toneladas à China do que de lá importa. Se a Balança Comercial ainda assim é deficitária, remete ao fato de que os produtos vendidos apresentam um valor muito inferior ao que é importado.

 De fato, conforme tabela abaixo, para o ano de 2012, por exemplo, enquanto o valor médio das toneladas exportadas capixabas foi de US$ 170,28, em termos de importações, o valor médio da tonelada importada foi de US$ 3.957,19. Isso demonstra que os produtos importados possuem muito mais valor agregado por tonelada importada do que o que se adiciona de valor na tonelada exportada, o que significa uma especialização regressiva, conforme ainda discutiremos abaixo.

TABELA 3 – PREÇO MÉDIO DA TONELADA IMPORTADA E EXPORTADA – ESPÍRITO SANTO X CHINA – 2006 A 2012, EM US$ CORRENTES

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

Preço médio tonelada Exportada

83,10

80,24

109,84

120,03

170,15

194,89

170,28

Preço médio tonelada importada

2.234,12

2.622,79

2.852,93

4.046,69

3.244,03

3.851,42

3.957,19

FONTE: SECEX / ALICEWEB

3 – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

 Algumas reflexões podem ser levantadas quanto ao intercâmbio comercial Espírito Santo X China, o que remete a desafios tanto à economia capixaba quanto à economia brasileira:

 a)    Comparativamente o valor da tonelada exportada pelo Espírito Santo é muito mais baixo que as importações. E isso acontece sem setores em que a produtividade já é muito elevada: as empresas exportadoras dessas commodities já são referência na produtividade de seus respectivos produtos. Seja em minério, soja, celulose, petróleo ou café.Mesmo que se possa fazer ainda alguns avanços, a produtividade nesses setores já está próximo da fronteira. Ou seja, não há maiores possibilidades de avanços em termos de produtividade nessas atividades. Configurou-se uma especialização regressiva, em que a produtividade já é elevada, mas em setores no início da cadeia produtiva;

b)    Isso leva a crer na necessidade não de incremento da produtividade, mas na necessidade de inserção de elos industriais posteriores na cadeia produtiva, a fim de que neles tanto se adicione valor como entre em novo ciclo de produtividade.

c)    Por outro lado, há que considerar o gap de produtividade entre os produtos importados e os exportados. O desafio é que se há ainda, na economia chinesa espaço para o avanço da produtividade nos setores fornecedores a economia capixaba, esse déficit tende ainda a aumentar.

 Dessa forma, pode-se concluir que o déficit comercial capixaba com a China não pode ser equalizado se as exportações ficam concentradas nesses setores/produtos que não podem mais disputar com os produtos chineses em termos de produtividade. Nesse caso, é preciso, como vem sendo feito em vários fóruns de discussão sobre a economia capixaba, discutir se é essa a economia que queremos para algumas décadas a frente.

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  2. Não sabia que a China influenciava a economia do Espirito Santo.

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