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VISÕES DO DESENVOLVIMENTO I e a economia capixaba

In Desenvolvimento Capixaba on 06/02/2012 at 9:11

Por: Ednilson Silva Felipe

Além das questões ligadas ao investimento, à inflação, taxas de juros, à infraestrutura, etc…, a teoria econômica tem discutido algumas razões que explicariam a capacidade que algumas sociedades têm (e outras não) de se desenvolver de forma sustentada. Uma das teses dessa vertente é que a construção de uma sociedade que seja próspera depende dos hábitos saudáveis, costumes socialmente aceitos e dos princípios éticos de seus cidadãos. Isto porque a falta desses atributos gera altos custos para a sociedade, custos que as sociedades onde impera a confiança não precisam pagar.

De forma mais profunda, argumenta-se que o bem estar de uma nação e também sua capacidade de se desenvolver sustentavelmente ao longo do tempo é condicionado por uma característica fundamental: o nível de confiança mútuo e inerente em todos os membros dessa sociedade, o que algumas vertentes teóricas chamam de capital social.

Aqui, vou discutir brevemente três visões que defendem que resgatar a confiança é o princípio fundamental do crescimento de longo prazo de qualquer sociedade.

Um dos primeiros teóricos a tratar do tema foi Robert Putnam. Segundo sua visão, o capital social não é formado crucialmente por regras, leis e regulamentos explícitos e escritos, nem mesmo por habilidades estratégicas e administrativas. O capital social seria construído e fundamentado muito mais em função dos hábitos éticos e do senso de obrigação moral compartilhados por todos os membros de uma sociedade. Para Putnam, esses elementos é que potencializam o desempenho do estado democrático. Isso quer dizer que a ausência desses elementos levaria necessariamente o estado a ter uma ação deficiente, pouco focada no desenvolvimento sustentado no longo prazo. Explorando essa visão,  Francis Fukuyama, por sua vez, vai dizer que o capital social está ligado à capacidade de as pessoas trabalharem juntas visando objetivos comuns em grupos e organizações. A palavra chave para esses autores é CONFIANÇA.

De modo geral, confiança pode ser entendida como a expectativa de que no seio da sociedade, os cidadãos vão primar por um comportamento estável, cooperativo e baseado em normas que são compartilhadas por todos os seus membros. Por conseqüência, o capital social se materializa numa capacidade de desenvolvimento que determinada sociedade possui e decorre da prevalência de confiança. Em outras palavras, a desconfiança generalizada no interior de uma sociedade impõe uma espécie de ônus sobre todas as formas de atividades econômicas.

Em North, e outros institucionalistas – principalmente os velhos institucionalistas -, por outro lado, a explicação da desigualdade do desenvolvimento também está na confiança, mas essa como reflexo das instituições. Ou seja, A CONFIANÇA é fundamental para o desenvolvimento, mas é a qualidade das instituições que definem se vai haver confiança mútua em uma sociedade ou não. Em última instância, o importante é entender o impacto das instituições sobre o desenvolvimento econômico. Por sua vez, a qualidade das instituições está ligada à capacidade que ela tem de fazer com que os indivíduos respeitem os contratos, os direitos de propriedade, a liberdade individual. Para os institucionalistas, há uma forma de instituições que todos os países, estados e regiões precisam adotar se eles quiserem promover o desenvolvimento de longo prazo e sobreviver num mundo de competição tão acirrada e com variáveis cada vez mais complexas. A característica fundamental dessa institucionalidade é a CONFIANÇA.

Por fim, quero colocar a visão de Celso Furtado para incrementar as visões já colocadas de desenvolvimento. Para Furtado, o crescimento econômico é importante porque como ele eleva-se a renda da população. Com a modernização econômica, mudam-se as formas e estilos de vida que se beneficiam principalmente do aumento da produtividade. Mas para ele, o desenvolvimento econômico é algo muito mais complexo.

Só o desenvolvimento econômico é capaz de fazer do homem um elemento de transformação social, passível de agir positivamente sobre seu futuro e realizar suas potencialidades. Nas palavras de Celso Furtado: “É por isso que o desenvolvimento econômico traz em si mesmo uma teoria do ser humano, uma antropologia filosófica”. No sentido de Furtado, então, não pode haver desenvolvimento enquanto perdurarem as questões desigualdade profundas como é a realidade brasileira e capixaba.

Resumindo isso tudo, pode-se dizer, então, que a falta desses atributos causa perdas significativas em termos econômicos. O declínio da confiança e da sociabilidade está diretamente ligado ao aumento dos índices de violência, dos litígios civis, ao rompimento da estrutura familiar, ao desaparecimento daquelas formas tradicionais de vizinhança, da desconfiança generalizada, o desprezo às diferentes visões cristãs,  etc, o que acaba levando a um sentimento generalizado da falta de valores compartilhados e de espírito de comunidade.

Por fim, mais um trecho de Furtado: “No curso da história, as ciências têm evoluído graças àqueles indivíduos que, em dado momento, foram capazes de pensar por conta própria e ultrapassar certos limites. Com a economia, essa ciência social que deve visar prioritariamente o bem estar dos seres humanos, não é diferente. Ela requer dos que a elegeram imaginação e coragem para se arriscar em caminhos por vezes incertos. Para isso, não basta se munir dos melhores instrumentos. Há que se atuar de forma consistente no plano político, assumir a responsabilidade de interferir no processos histórico e de orientar-se por compromissos éticos”[1]

O desejo é que neste ano de 2012 tais temas aqui tratados sejam discutidos e pensados para a economia capixaba.

[1] FURTADO, C. Metamorfoses do capitalismo. UFRJ, 2002.

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